Chapter Text
Seu Círculo, como a maioria dos outros, vivia nas árvores.
Alguns dos ocidentais mais teimosos estabeleceram residência nas montanhas, que Izuku sempre ouvira dizer serem belas e imponentes falésias rochosas. Como uma criança de cinco anos que pouco sabia sobre o mundo fora de seu Círculo, Izuku não conseguia acreditar nessas histórias, pois acreditava que nada poderia ser mais alto do que as gigantescas árvores da Floresta Antiga ao redor de seu local de nascimento. Elas cobriam o solo da floresta tão densamente que a luz do sol só atingia o chão em pontos luminosos contornados pelos padrões das folhas em forma de estrela, e cresciam tão altas que não era possível ver o topo simplesmente olhando para cima. Mesmo assim, Izuku tentava.
“Olha pra frente, Deku!”
Ah, certo. Izuku obedeceu à ordem, virando a cabeça de volta para olhar para frente tão rapidamente que seus cabelos verdes caíram sobre os olhos. Ele não precisava necessariamente olhar, mas isso o ajudava a correr mais rápido. Afinal, ele nascera naquela floresta e descobrira que era tão fácil quanto respirar correr pela densa folhagem e pelas plantas vibrantes ao seu redor. Ele era desajeitado, sabia disso, mas mesmo assim tinha passos firmes ao correr, nunca tropeçando em um tronco caído ou em uma raiz exposta.
Katsuki ainda era mais rápido.
"Te peguei, Deku!" Katsuki gritou enquanto pequenas mãos se fechavam nas costas de Izuku.
Izuku perdeu o equilíbrio naquele instante, cambaleando para o lado com a mudança na distribuição do peso. Ele caiu sobre algumas samambaias com folhas maiores do que ele e Katsuki juntos, e o impulso o fez dar uma cambalhota para frente. Ele riu, apesar de sentir um pouco de dor, pois Katsuki estava rolando junto com ele. Quando finalmente pararam, o peito de Izuku subia e descia rapidamente pelo esforço, então ele nem tentou se levantar de imediato. Em vez disso, ficou admirando a forma como os galhos das árvores se dividiam do tronco, formando grandes copas cheias de plantas, pássaros e pequenos animais.
“Você me pegou,” Izuku admitiu, satisfeito, ainda tentando recuperar o fôlego. “Quer continuar? Ir até o riacho?”
Normalmente eles iam mais fundo pela floresta, até o córrego onde podiam brincar na água em dias quentes como aquele. Izuku esperava encontrar alguns tritões descansando na água gelada e cristalina, embora soubesse que Katsuki provavelmente o empurraria dentro d’água se ele passasse tempo demais observando eles.
Katsuki se virou e puxou com maldade o yǐ prav de Izuku — a trança em seu cabelo.
“A gente tem que voltar pra ajudar as velhas com a comida do Dia da Escolha, idiota.”
“Eu quase esqueci, Kacchan!”
“Porque não tem nada nessa sua cabeça além de nuvens e margaridas.”
Izuku riu disso, mesmo tendo quase certeza de que Katsuki não estava brincando.
“Fǐglǐbiʘ, Kacchan!” ele soltou, animado. “Provavelmente tem um monte de coisa pra fazer!”
“Merda, não brinca.”
Izuku franziu a testa ao ouvir a língua, mas a ignorou, principalmente porque achou que era um palavrão, mas também porque não sabia o que significava. Às vezes, ele ouvia Mitsuki dizer coisas assim, mas algo lhe dizia que era melhor não mencionar o assunto para a própria mãe. Ele não estava pronto para voltar, ainda não, então olhou para as árvores novamente, permanecendo em silêncio e deixando que os sons do kaoǵ o acalmassem.
Ele pensou nas canções que sua mãe cantava para ele à noite, canções que os Tvǐvsaki acreditavam terem sido criadas pelas Árvores Antigas. Fazia sentido, ele supôs. As Árvores Antigas veneravam os Tvǐv, os sóis, desde que o tempo existe, muito antes de existirem os saki. Os saki, o povo, aprenderam a viver entre as Árvores Antigas com o muyunwǐ dos Tvǐv, a língua dos dois sóis.
“Por que os Tvǐv, Kacchan?” Izuku perguntou em voz alta, dando forma aos próprios pensamentos.
“Os quê agora?” Katsuki retrucou.
“Os Tvǐv. Por que eles adoravam eles?”
Katsuki bufou, mas não repreendeu Izuku como ele esperava pela metade. Talvez estivesse satisfeito por terem perguntado a ele, já que, na maior parte do tempo, Izuku conseguia admitir que falava demais. Katsuki não entrava nas ideias dele nem o agradava desde que eram apenas brotinhos, então surpreendeu Izuku quando ele finalmente respondeu.
“As Árvores Antigas nem sempre foram tão altas”, disse Katsuki. Izuku fechou os olhos novamente. Ele gostava muito do som da voz de Katsuki. “E há muito tempo, havia apenas um sol. Ele se tornou solitário, porque a lua sempre desaparecia durante o dia. O segundo sol surgiu, atraído pela força do primeiro, e eles se tornaram os primeiros Tvǐvr̈ag̈.” Companheiros solares. “Eles se tocam apenas na primeira e na última luz do dia, mas nunca estão a mais de doze palmas solares de distância. Quando o segundo sol surgiu, as Árvores Antigas absorveram a luz e cresceram duas vezes mais; mais altas que os penhascos mais altos.”
A voz de Katsuki assumiu um tom quase reverente, algo extremamente raro. Assim que terminou de contar a história da muda, sua compostura mais impetuosa retornou.
“Foi por isso que criaram o Tvǐv muyunwǐ. Ensinaram isso aos saki somente depois que os primeiros homens provaram que podiam escalar o topo de uma Árvore Antiga e sentir o verdadeiro poder dos dois sóis, e foi assim que nos tornamos os Tvǐvsaki.”
Izuku sorriu, pensando nessas histórias.
“Você já sabia disso, Deku estúpido.”
Katsuki estava certo, como sempre.
"Um dia, deveríamos subir até o topo de uma Árvore Antiga." Ele nem sequer conseguia imaginar a sensação da força total do sol em seu rosto, mas imaginou que talvez gostasse.
"Eu poderia fazer isso agora", resmungou Katsuki, claramente irritado novamente. Izuku abriu um olho para olhá-lo.
“Poderíamos escalá-la juntos. Algum dia.”
“Você jamais conseguiria acompanhar.”
Izuku se perguntou se ele estava certo. Escalar uma Árvore Antiga era algo que apenas os Tvǐvsaki mais capazes tentavam, algo que apenas aqueles que administravam o kaoǵ há anos sonhavam em experimentar. Podia levar dias para escaladores experientes, e eles frequentemente tinham que carregar comida e suprimentos para dormir enquanto escalavam e descansavam no meio da densa copa das árvores.
"Eu te seguiria de qualquer jeito, Kacchan."
E por algum motivo, aquilo era verdade. Ele ouviu um farfalhar que chamou sua atenção, abrindo bem os olhos e se virando para ver Kacchan parado na base de uma Árvore Antiga. Ele olhava para a árvore como se ela o tivesse desafiado pessoalmente, e ele não ia recuar.
“Kacchan?” Izuku perguntou, curioso.
“Você devia me assistir, Deku estúpido.”
“Você não devia fazer isso,” Izuku disse, nervoso, mas Katsuki apenas rosnou para ele lá de cima.
Eles escalaram por pelo menos três ciclos solares, mas não chegaram muito longe na árvore. Descansaram em um galho grande, ponderando como descer. Talvez pudessem ter subido mais alto, mas suas mãos já começavam a sangrar pelo esforço e estavam ficando sem caminhos e pontos de apoio. Era proibido desrespeitar a árvore danificando a casca, o musgo ou qualquer outra planta que crescesse nela, então precisavam pisar com muita cautela.
Apesar de Katsuki ser mais rápido que ele, Izuku era um excelente escalador e conseguiu manter um bom ritmo durante a subida. Ele o seguiu em silêncio até perceber que não podiam ir mais alto e, em vez disso, retornaram para o galho estendido. Izuku sabia que descer seria infinitamente mais difícil do que subir, e seus braços e ombros pareciam doer ainda mais por causa disso.
"Deveríamos voltar para baixo", disse Izuku a Katsuki, com a voz carregada de cansaço.
“Por quê, Deku?” Katsuki debochou, o corpo tenso como o de um animal enjaulado. “Está com medo? Voltou a ser um Deku estúpido e inútil?”
“Sim, eu estou com medo. Mas não é isso.”
“Então o quê? Acha que eu não consigo? O covarde aqui não sou eu, Deku!”
Izuku balançou a cabeça suavemente.
“Kacchan, às vezes você guarda seu coração fechado demais, sabia?” Izuku não tinha certeza se encontraria as palavras certas para explicar o que queria dizer, mas tentou assim mesmo, mais sincero do que o normal por causa da situação. Apontou para o próprio peito. “Você mantém tudo aqui dentro e não deixa ninguém perceber. Sua Maǵi é Proteção, mas você também precisa de alguém que o proteja.”
“Vou empurrar você desta árvore, seu Deku estúpido inútil.”
Os insultos atingiram o coração de Izuku, mas ainda assim ele sorriu e estendeu a mão. Katsuki o observava com os olhos arregalados, quase em pânico. Izuku deslizou os dedos pelo esterno dele e pousou a mão cuidadosamente sobre seu peito. Então fechou os dedos em um pequeno gesto, como se estivesse segurando algo.
“Eu vou cuidar dele, Kacchan”, disse, como sempre dizia.
Toda vez que pegava o coração de Katsuki, esperava que ele o arrancasse de volta imediatamente, mesmo que aquilo fosse apenas uma brincadeira. Izuku apertou as mãos contra o próprio peito, como se segurasse um pássaro minúsculo e assustado, com medo tanto de machucá-lo quanto de deixá-lo escapar.
Ele sorriu para Kacchan, que não havia desviado os olhos dele em nenhum momento.
“Eu vou cuidar dele. Só por enquanto.”
Mesmo com toda a sua coragem, Izuku chorou durante quase toda a descida da árvore, que levou o dobro do tempo da subida. Ele não escorregou, e Katsuki também não, mas ambos estavam com dores nos ossos e as mãos pingando sangue quando finalmente tocaram o chão firme. Ficaram fora por tanto tempo que o sol já havia se posto no céu, e Izuku sabia que a noite logo tomaria conta da luz do dia restante. Não pretendiam ficar até tão tarde, mas agora que tinham ficado, Izuku sentia ainda menos vontade de voltar. A noite sempre trazia as cores mais vibrantes para debaixo da copa das árvores.
Um único olhar para Katsuki foi como se um acordo silencioso tivesse sido selado entre eles. Sentaram-se na base da Árvore Antiga que haviam tentado escalar, encostados em seu tronco arqueado e buscando refúgio no musgo espesso e macio. O musgo cedeu sob o peso de Katsuki e se expandiu, tocando cada parte de sua coluna, aconchegando-o contra o chão de uma forma que fez com que seu cansaço parecesse ter se dissipado, penetrando profundamente no solo.
Izuku se perguntou distraidamente se eles se meteriam em encrenca por terem faltado ao trabalho de ajudar nos preparativos, mesmo que não tivesse sido intencional. Ninguém viria procurá-los, já que não havia como terem se perdido e nada na floresta a temer, mas isso não significava que o Círculo não estaria pronto para puni-los severamente por sua ausência. Izuku suspirou pesadamente e afastou esses pensamentos da cabeça enquanto a escuridão trazia nova vida ao kaoǵ.
Muitas das plantas eram luminescentes, e sua verdadeira beleza só podia ser vista à noite. Isso era especialmente verdadeiro sob as densas copas que cresciam nas grandes árvores antigas; a flora que crescia sob a cobertura amava a escuridão total, escolhendo apenas seu manto para revelar suas verdadeiras cores. Algumas flores começaram a se desdobrar lentamente, até que suas pétalas se abriram completamente, revelando seu azul profundo e violeta. Algumas espécies de musgo brilhavam com uma cor quase neon, e lírios-da-lua adornavam a parte inferior da copa como um manto de neve fresca. Os cogumelos ao redor, no chão da floresta, também começaram a brilhar, sendo o mais comum de um tom amarelo vibrante que quase parecia uma vela acesa.
Os sons da floresta tinham uma maneira única de fazer Izuku se sentir em paz como nada mais conseguia, e ele sentia a tensão do dia se dissipar a cada coaxar de uma rã-da-árvore, ao farfalhar das folhas, ao canto dos grilos ou ao chamado distante dos pássaros. Mesmo durante a noite, nada era realmente escuro, imóvel ou silencioso.
As estrelas eram estranhas; surgiam entre as folhas das árvores e cintilavam no céu, desaparecendo e reaparecendo conforme o vento assobiava pelos galhos mais altos das Árvores Antigas. Izuku sempre achara inquietante o fato de todos saberem onde os sóis estavam, mesmo quando não podiam vê-los, enquanto sabiam tão pouco sobre as estrelas. Ainda assim, ele gostava delas, apesar do mistério.
Ou talvez fosse justamente isso de que mais gostasse nelas.
“Kacchan”, perguntou ele, interrompendo o silêncio que se instalara entre eles. Katsuki não respondeu, mas grunhiu para mostrar que ainda estava acordado. “O que você acha que está mais alto, a ponta de uma Árvore Antiga ou as estrelas?”
Sem hesitar, Katsuki respondeu:
"Árvores Antigas. Dá para ver onde elas tocam o céu."
Izuku murmurou em resposta, feliz com a ideia.
"Se um dia subirmos até o topo de uma Árvore Antiga, iremos além das estrelas. Poderíamos pegar uma do céu e trazê-la de volta para cá."
“Dã, Deku.”
Izuku não se lembrava de seus olhos se fecharem, nem de Katsuki o carregando nas costas de volta para casa; a única coisa em sua mente naquela noite era um sonho com o luar em seu rosto enquanto ele e Katsuki estendiam as mãos para o céu noturno, segurando as estrelas.
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Katsuki sabia muitas coisas sobre Fǐglǐbiʘ, o Dia da Escolha. Primeiro e mais importante, não havia absolutamente nada que alguém pudesse escolher.
Ele havia contado isso à sua mãe, por considerar o assunto extremamente importante, mas ela apenas zombou dele.
"Só porque você não está escolhendo, pirralho." Foi isso que ela disse, como se não fosse exatamente esse o ponto que ele estava tentando deixar claro. Ela tagarelou sobre os Anciãos Superiores e as Virtudes, como todos os adultos fazem, e Katsuki nem sequer fingiu que estava prestando atenção.
O Dia da Escolha de Katsuki coincidiu com o de Izuku, já que ambos nasceram no mesmo ciclo solar. Era extremamente raro em um Círculo como o deles ter crianças nascidas no mesmo ciclo solar, mas Katsuki se perguntava se seria uma maldição. Todas as outras crianças do Círculo eram muito velhas para brincar com ele, com exceção do bebê que nascera há menos de três luas, que era muito novo. Sua única opção era Izuku, o Deku. Isso os tornara inseparáveis.
No Dia da Escolha, Izuku segurava a mão de Katsuki com força entre as suas. Antes de deixarem a copa que cercava a Floresta Anciã dos Altos Anciãos, Izuku se virou para ele com uma expressão que transmitia duas coisas ao mesmo tempo: seriedade absoluta e um medo quase desesperador. Katsuki precisou se conter para não olhar ao redor em busca de algum perigo ao vê-lo daquele jeito.
Izuku ajustou os espessos yǐqi em seus braços e se preparou para falar. Então, estendeu a pequena mão em direção ao peito de Katsuki, sobre o coração dele.
Tum, tum, tum.
Ele fechou seu pequeno punho e o puxou de volta para o peito.
"Eu seguro, Kacchan." Katsuki deveria tê-lo jogado no chão por isso, e até queria, mas por algum motivo ele permaneceu imóvel onde estava.
"Tanto faz." Ele tentou parecer entediado e indiferente. Odiava a si mesmo por se sentir um pouco melhor.
Desde o Dia da Escolha, Izuku usava tecidos finos em tons de verde — seu próprio kyoh, cuidadosamente tingido com musgo encontrado apenas na casca das Árvores Antigas. Gentileza. O restante do Círculo agia como se a Virtude Verde fosse uma honra extraordinária; Inko chegou até a chorar por causa disso.
Katsuki não conseguia entender aquilo. Para ele, Gentileza era uma Maǵi inútil, e disse isso diretamente a Izuku mais tarde. Izuku mal pareceu escutá-lo, animado demais falando sobre “Kacchan usando vermelho” ou “Kacchan tendo uma Virtude tão incrível”. Típico.
Katsuki gostava da Virtude Vermelha que lhe fora concedida — Proteção —, mas detestava usar aquela cor vibrante o tempo todo. Antes, preferia roupas pretas, porém seus pais haviam jogado tudo fora junto das roupas de broto e as substituído pelo vermelho.
Para piorar, o tecido era tingido com sementes de frutas e carregava um cheiro constantemente adocicado, algo que quase sempre lhe dava dor de cabeça. Também não ajudava o fato de Izuku viver agarrando suas roupas depois disso, dizendo o quanto achava elas incríveis e como Katsuki ficava bem usando vermelho.
As cores podiam ser perdoadas, Katsuki supôs; afinal, grande parte de Izuku já era de um verde estúpido, então a Virtude Verde realmente não surpreendeu Katsuki, não que ele fosse admitir isso. Dlakmǐds, os Dons, como eram chamados, surgiam por conta própria. Os Anciãos Superiores sempre conseguiam, de alguma forma, escolher uma Virtude que se adequava bem ao Dom de uma pessoa, mesmo que este nunca se manifestasse antes que a pessoa tivesse caminhado pela floresta por mais de cinco ciclos solares.
No entanto, no Dia da Escolha, Izuku foi informado sobre seu Dom. Disseram-lhe que ele não tinha um.
Agora aquilo, aos olhos de Katsuki, era imperdoável. Um Dom era o que fazia o Círculo funcionar; era a forma como cada pessoa contribuía para aquela comunidade tão unida. Izuku não possuir um Dom o tornava fraco. Até mesmo Katsuki, ainda um broto, conseguia entender que aquilo era verdade.
Izuku era deku.
Ele não dizia a outra palavra em voz alta, mas, quando se sentia completamente tomado pela raiva e pelo rancor do mundo, pensava nela. Pensava consigo mesmo: Izuku é sem Dom. Izuku di Dlokmoden.
Mesmo nos cantos mais escuros e secretos de sua mente, aquilo soava pior do que uma maldição.
“Katsuki”, seu pai lhe dissera, “Izuku e você nasceram juntos por uma razão. A Virtude Verde é muito rara, entende? Manter a Gentileza no mundo em que vivemos não é algo garantido, nem mesmo com as cores que Izuku veste. Essa Virtude Vermelha lhe foi dada por um propósito maior do que ainda conseguimos compreender.”
Katsuki pensou que ter uma forma de combate da Virtude Vermelha seria um uso melhor das cores, mas manteve isso em segredo. Dia da Escolha. É, claro, e nada saiu como ele queria; absolutamente nada como ele havia escolhido.
Ao menos seu dom era incrível. Fazer explosões com as mãos era divertido e um sinal inegável de que ele seria incrivelmente poderoso um dia. Seus pais não estavam nada contentes, já que ele vivia incendiando a casa deles.
“Nós vivemos dentro de uma árvore morta, Katsuki!”
Nem mesmo eles conseguiam irritá-lo o suficiente para abalar seu ânimo por muito tempo. Até mesmo as crianças mais velhas da vila, aquelas que já não eram consideradas mudas, não tinham um Dom tão legal quanto o dele. Talvez agora todos finalmente parassem de ficar encantados com a estúpida Virtude Verde do Deku, já que ele tinha conseguido algo muito melhor.
Não pararam. Mas aquilo ao menos tornou brincar com Deku mais interessante.
“Kacchan!” Deku reclamou, correndo pelo kaoǵ mais rápido que uma lebre.
Katsuki odiava o quanto precisava se esforçar para acompanhá-lo; odiava aquilo, e isso despertava dentro dele algo que queimava de dentro para fora de uma forma que nem seu fogo conseguia alcançar.
Eles já estavam muito longe dos bnǐg̈, com as moradias deixadas para trás havia bastante tempo, mas Katsuki não poderia se importar menos. Não existia nenhum lugar na floresta onde ele e Izuku fossem incapazes de encontrar o caminho de volta. Todos os Tvǐvsaki nasciam com uma habilidade instintiva de usar o sol para se orientar e perceber a passagem do tempo, como os Anciãos Superiores sempre lhes ensinavam.
Katsuki ignorou Deku e seus chamados, provocando outra explosão.
“Como vamos encontrar os animais se você continuar fazendo isso?”
Katsuki poderia ter revirado os olhos. Deku estava sempre perseguindo os kma que viviam no meio da folhagem densa; Katsuki se importava muito pouco em entender as plantas e os animais como Deku, mas ele realmente não tinha outras opções. Com seu Dom, porém, ele podia espantá-los e forçar Deku a jogar os jogos que ele queria. Quando recebeu seu Dom pela primeira vez, Deku não tinha medo dele. Ele ainda não tinha; ele nem sequer tinha aprendido o bom senso de sair do caminho quando Katsuki lançava explosões. Era como se Deku soubesse que Katsuki não o machucaria de verdade, mesmo que já o tivesse feito. Maldita Virtude da Bondade; Katsuki não tinha certeza de como, mas era responsável por tudo isso. Ele lançou outra explosão por precaução.
Apenas alguns dias antes, ele estava acompanhando Deku de volta à vila para ajudar nos preparativos do Dia da Escolha, mas agora que o festival aconteceria mais tarde naquele dia, todas as lembranças de seu Fǐglǐbiʘ estavam muito frescas em sua mente. Não havia mudas neste ciclo solar, mas isso nunca impediu o festival de acontecer. Os Anciãos Superiores provavelmente não estariam lá, mas o resto do Círculo celebraria mesmo assim, todos fazendo uma pausa em seus trabalhos habituais. Katsuki percebeu que não tinha a menor vontade de se juntar aos outros, e tampouco queria voltar. Havia algo o incomodando, pressionando-o como se estivesse mordiscando seus calcanhares e fosse atacá-lo no instante em que parasse, nem que fosse por um segundo.
“Kacchan…”, Deku resmungou. “Está ficando tarde, e nós ainda não vimos nenhum animal.”
Sua voz soava emburrada enquanto diminuía o passo, mas Katsuki o ignorou e passou correndo por ele.
“Kacchan!”
Katsuki sabia que Deku ia querer estar no festival com a mãe, e mesmo querendo frustrar os planos de Deku por ele ter nascido um perdedor, não queria chatear Inko. Essa foi a única razão para diminuir o passo e se virar para onde Izuku permanecia parado, enraizado no chão. A única razão.
Não porque nada seja tão divertido quando ele não está correndo atrás de mim.
Inko o havia criado tanto quanto sua própria mãe, assim como a mãe de Katsuki ajudara a criar Izuku. Os brotos passavam praticamente o mesmo tempo com todos os cuidadores do Círculo, voltando para a própria linhagem apenas quando havia algum motivo para retornar à moradia original.
A maior parte das pessoas do Círculo não tratava os próprios filhos de maneira diferente das outras crianças, mas Inko sempre tivera um carinho especial por Izuku — e, por consequência, por Katsuki também.
No fundo, ele era grato por isso. Sua própria mãe conseguia ser um verdadeiro tormento às vezes.
Katsuki mexeu inquieto no yǐqi que carregava o símbolo da linhagem Bakugo.
"O quê?" Ele disparou, ainda irritado com a ideia de voltar para o bnǐg̈.
“Você… hum… ka,” as pequenas mãos de Deku estavam firmemente unidas enquanto ele olhava ao redor, semicerrando os olhos. “Parece nebuloso para você?”
Katsuki franziu a testa, observando as árvores. A floresta estava mergulhada num silêncio sinistro; tudo o que se ouvia era o som das folhas batendo umas nas outras, no ponto de encontro com o céu.
Mas ele viu a fumaça. Os ventos estavam mudando; não era apenas neblina. Seus olhos se arregalaram.
"Deku, precisamos ir embora."
“Precisamos voltar!” Deku parecia um pouco perturbado. “O Círculo—”
"Eu sei, Deku", disse Katsuki contra seu bom senso. Seu coração gritava para que ele corresse na direção oposta. Sua cabeça latejava com a vontade de agarrar Deku e fugir dali o mais rápido possível; cada sentido do seu corpo implorava para que escapassem. Mas Deku estava certo. Eles não podiam sair do Círculo.
Eles voltaram correndo pelo caminho que tinham vindo, e não estavam mais correndo apenas por diversão, mas sim muito mais rápidos do que antes. Katsuki achou que tinha perdido Deku de vista algumas vezes, mas então ele acelerava o passo e alcançava o verde de seu kyoh novamente.
Quanto mais se aproximavam, mais denso se tornava o cheiro de fogo. Quando chegaram perto o suficiente, deveriam ter conseguido ver os arredores do bnǐg̈, pois a fumaça era tão escura e densa que era impossível enxergar além do próprio nariz.
“Kacchan”, Deku disse com dificuldade, entre um soluço e uma tosse. Respirar estava ficando difícil. “O que aconteceu aqui?”
Katsuki não sabia. Ele não sabia, mas algo sombrio se desdobrava em seu peito. Algo terrível. Gritava para que ele pegasse Deku e fugisse, como ele quisera fazer na floresta, mas agora era algo mais desesperado.
"Deku", Katsuki ouviu a si mesmo dizer cautelosamente.
"Preciso encontrá-la!" Deku avançou, direto para o meio da confusão.
Por mais que Katsuki sentisse uma profunda necessidade de sair do bnǐg̈, nada o impediria de seguir Deku. Ele gritava o nome de Inko, mesmo estando tão longe de sua morada. Katsuki correu atrás dele, o pânico o dominando ao pensar em perdê-lo de vista. Brasas cintilavam na névoa, e a fumaça era de um preto intenso com um fedor que fez Katsuki engasgar. O bnǐg̈ era a fonte do incêndio.
"Não," Katsuki emitiu um som tão profundo e gutural que ele nem conseguiu reconhecer que era ele mesmo.
Onde estava sua mãe? Seu pai? Onde estava qualquer pessoa do Círculo? Quanto mais se aproximavam, os únicos sons eram os do fogo que queimava com mais intensidade a cada passo. Katsuki podia ouvir Deku gritando por Inko, gritando por Mitsuki, gritando por qualquer um, mas não conseguia entender o que significava não receber resposta. Ele queria chegar ao centro do bnǐg̈, seus pés o haviam levado até lá seguindo Deku, mas a tempestade de fogo repentinamente se intensificou quando o vento mudou, ganhando nova vida.
"Deku!" Ele gritou, mas sua garganta estava rouca por ter inalado a fumaça. Onde ele estava? Onde ele estava? Onde ele estava?
Katsuki ouviu um grito e se virou imediatamente na direção dele.
"Izuku!" Ele gritou, sem nem mesmo saber o que estava dizendo.
Ele não conseguia distinguir uma direção da outra agora que a fumaça havia mudado e bloqueado sua visão. Brasas do calor dos incêndios nas casas atingiram sua pele, causando queimaduras dolorosas.
Não houve resposta clara ao seu chamado, mas ele ouviu Deku gritar novamente e seguiu o som às cegas.
"Deku!" Ele gritou mais uma vez.
"Kacchan", veio de perto dele, tão baixo quanto quebrado.
Katsuki estendeu as mãos à sua frente e tateou os destroços, percebendo que estavam na base de uma Árvore Alta morta e nos restos da morada que ali existia. Ele tocou algo quente com a palma da mão e levou um segundo para recuar com um sibilo agudo; suas palmas estavam acostumadas ao calor de seu Dom, então ele mal sentiu a queimadura. Suas pernas, no entanto, não. Ele esbarrou em algo que devia ter sido madeira, mas que agora havia se transformado em pouco mais que cinzas. O que restava da madeira se esfarelou ao contato, as brasas quentes queimando a pele nua de suas pernas. Katsuki jogou a cabeça para trás e gritou, incapaz de fazer muito mais do que berrar.
Ele recuou o mais rápido que pôde, cada passo uma agonia, e tropeçou para trás em algo sólido.
"Kacchan," a figura era verde, Katsuki agora podia ver que eles estavam perto o suficiente e rente ao chão, onde a fumaça era menos intensa.
"Deku", ele soluçou de volta, angustiado demais para sentir raiva por causa do tremor em sua voz.
Deku estava agarrado a um corpo que há muito havia enegrecido a ponto de ficar irreconhecível, e suas mãos estavam queimadas por se recusar a soltar o kyoh arruinado que a pessoa vestia.
"Q-Quem—" Katsuki nem conseguiu se forçar a perguntar quem era.
Deku olhou para ele com lágrimas embaçando o verde de seus olhos e balançou a cabeça. Ele não sabia.
"Temos que sair daqui", Katsuki disse com a voz embargada, e Deku apenas gemeu em resposta.
Katsuki fechou os olhos e imaginou o vermelho do kyoh tingido que seu pai segurava quando lhe explicou pela primeira vez o propósito da Virtude Vermelha. Katsuki se perguntou vagamente por que estava pensando nisso agora, e por que estava chorando tanto quanto Deku chorava ao seu lado. Ele estava sendo patético. Não conseguia ser diferente, e seu coração doía tanto no peito que se perguntou se apenas suas pernas estavam queimadas.
"Precisamos ir embora", disse ele novamente, cambaleando para se levantar.
Ele sabia que, se não o fizesse, Deku poderia ficar naquele lugar até que tudo desmoronasse ao redor deles. Só aquele pensamento já lhe deu forças para agarrar Deku e colocá-lo de pé, arrastando-o para longe do corpo carbonizado mesmo enquanto ele resistia.
“Não podemos deixá-los, Kacchan, não podemos…” Deku chorava tanto que começou a soluçar, até que os soluços se transformaram em ânsia seca. Katsuki desejou conseguir ignorá-lo, mas aqueles choros atravessavam a parte mais profunda de seu coração de qualquer forma.
Quanto mais se afastavam, mais fácil ficava puxar Deku consigo.
Isso não tornava caminhar mais fácil.
Katsuki tropeçou outra vez, os pulmões queimando dentro do peito e as pernas gritando de dor, até cair no chão.
"Kacchan," Deku caiu de joelhos ao lado dele, e Katsuki pôde ver suas mãos tremendo, seus olhos arregalados de medo.
“Estou bem, Deku”, assegurou Katsuki. Ele socou o chão com os punhos e se levantou. Eles só precisavam chegar à beira do bnǐg̈ novamente, onde a fumaça era mais rarefeita. Assim que fosse mais fácil respirar, eles poderiam chegar ao riacho para cuidar das queimaduras. Katsuki não conseguia pensar muito além disso, principalmente porque a ideia da água fria em sua pele o deixava enjoado. “Temos que continuar.”
"O que aconteceu, Kacchan?" Deku gemeu ao lado dele, ajudando-o a se levantar. Ele se agarrou de um jeito que, para Katsuki, parecia mais que eles estavam se apoiando mutuamente do que qualquer outra coisa. "Nosso Círculo..."
Era quase impossível entender o Tvǐv muyunwǐ de Deku em meio aos seus gritos, e o tom de sua voz estava tão errado que a fala, quase como uma canção, era praticamente ininteligível. Katsuki os puxou, o suor do calor pingando fuligem em seus olhos, que ardiam terrivelmente. Eles ainda tinham um longo caminho pela frente.
“Bem, o que é isto?”
Katsuki congelou, esquecendo a dor. Eles não estavam falando Tvǐv muyunwǐ.
“Alguns Rǐnwifianos. Eles estão vivos.” Katsuki mal conseguia distinguir as vozes, mas sem dúvida estavam se aproximando.
"Vivos?" perguntou outro, embora Katsuki não entendesse o significado daquelas palavras. Izuku também não, mas gemeu ao lado de Katsuki ao ouvir o tom de voz desconhecido. "Pensei que tivéssemos queimado todos eles."
Alguns homens surgiram em seu campo de visão, mas não eram saki que Katsuki conhecia, e isso fez o medo se instalar em seu estômago como uma pedra.
Ele não queria acreditar em nada daquilo; estrangeiros teriam sido expulsos pelo Círculo. Aquilo não podia estar acontecendo.
E, ainda assim, ali estavam eles.
As roupas estranhas que usavam brilhavam em prata, assim como os longos objetos afiados semelhantes a lanças que cada um carregava. Fosse o que fosse, estavam encharcados de um vermelho espesso que escorria pela ponta. Todos seguravam a arma em uma mão e uma tocha na outra.
“Tvǐvsaki?” Izuku perguntou àquelas pessoas, com a voz trêmula.
Elas não disseram nada, apenas o encararam com desdém enquanto avançavam.
"Deku", Katsuki se ouviu advertir. Ele olhou para as armas deles; não se pareciam com nada que ele já tivesse visto. Não eram dos Tvǐvsaki. "Deku", ele repetiu, implorando para que não dissesse mais nada.
O cheiro de fumaça queimava seu nariz.
“Dlǐw dis qid paphu?” Izuku perguntou desta vez, com um tom desesperado.
“Não falamos língua selvagem”, responderam os forasteiros, apontando uma de suas armas para eles.
“Deku!”
Izuku já havia se colocado à sua frente. Tudo o que Katsuki conseguia ver era a cor do kyoh de Izuku, um verde mais profundo do que nunca, enquanto o céu se encobria pela densa neblina. A raiva ferveu dentro dele antes que pudesse controlá-la; raiva pela aparente perda de sua família, raiva pelas Árvores Antigas, raiva por tudo o que ele não conseguiu proteger.
“Nraz, Deku!” Ele gritou, querendo que ele saísse da frente. “Za!”
“Esse aí se acha muito, é?” Um dos homens murmurou. Katsuki sabia muito pouco da língua comum, mas percebeu pela voz do homem que ele estava gostando daquilo. “Queimamos sua casa e agora vamos levar seu amigo. Não é nada pessoal, você precisa entender isso, pequeno selvagem.”
Katsuki rugiu e tentou avançar, mas suas pernas estavam gravemente queimadas.
“Ora, ora”, disse o homem. “Vamos levar esse aqui para a Corte.”
Então o verde desapareceu, e lá estava Izuku. Ele estendeu as mãos para Katsuki, com os olhos arregalados de pânico. Katsuki retribuiu o gesto e, num instante que fez seu coração disparar, suas mãos se encontraram. Katsuki viu o medo nos olhos de Izuku, mas também viu algo mais, algo que o fez acreditar, ainda que por um momento, que o mundo deles não estava em chamas. E tão rápido quanto se tocaram, foram separados novamente, e todo o seu mundo começou a oscilar enquanto a fumaça turvava sua visão. Antes de ser levado pela névoa, Katsuki sentiu o roçar de dedos em seu peito. Observou Izuku recolher as pequenas mãos ao peito, com os punhos cerrados com força. Izuku estava dizendo algo.
"Eu seguro para você, Kacchan!" Os homens riram de Izuku, imitando seu Tvǐv muyunwǐ.
Katsuki sentiu como se alguém estivesse lhe dando um soco no estômago. Ele não conseguia mais perseguir Izuku, não conseguia nem respirar. Izuku pressionou as mãos contra o peito e então sorriu. Sorriu em meio às lágrimas que escorriam pelo seu rosto, deixando rastros patéticos na fuligem que cobria suas bochechas.
"Vou segurar. Só por enquanto."
“Não…” Katsuki ouviu a própria voz dizer, embora ela parecesse distante sob o zumbido que preenchia seus ouvidos. “Não! Eu nunca vou te perdoar!”
Ele já nem sabia se Izuku ainda conseguia ouvi-lo, mas isso não importava. Sentiu o pulso acelerar enquanto o medo se agarrava ao seu coração, vivo e ardente dentro dele como o fogo consumindo suas casas.
Seus olhos se arregalaram quando percebeu que Izuku devia ter ido longe demais para que ainda pudesse enxergá-lo, e seus gritos se tornaram quase maníacos.
“Eu nunca vou te perdoar!”
Repetiu aquilo de novo, e de novo, e de novo, até que as palavras viraram pouco mais que um choro quebrado.
Ele deveria carregar a Virtude Vermelha da Proteção.
Nunca vou te perdoar, pensou, mesmo quando sua visão começou a escurecer em manchas pela falta de oxigênio comprimindo seus pulmões.
E ele sabia exatamente para quem estava dizendo aquilo.
Não era para Izuku.
