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Depois de anos os dois finalmente se beijam

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 Eu estou simplesmente surtando.

Tem momentos na vida em que se torna necessário a gente parar e pensar, que merda é essa que tá acontecendo na minha vida?

 

 Bom, pra te dar um contexto eu preciso voltar a algumas horas atrás, ou melhor, a alguns muitos anos atrás.

 

 Quando me mudei de Sidney para Coreia eu era só uma garotinha assustada em um enorme e desconhecido novo mundo, deixar meus amigos para trás foi uma dor em meu coração de criança e eu tinha muita desesperança que fosse fazer novas amizades. Mas contra todo meu pessimismo infantil eu acabei tendo vizinhos ótimos entre eles, Hanna.

 

 Ah, a minha Hanna, eu a amo. Em pouquíssimo tempo nos tornamos inseparáveis, melhores amigas pra sempre, e nesse combo também veio o irmão insuportável dela, Christopher, carinhosamente Chan.

 

 Crescer com Chan foi uma verdadeira provação, eu estava sempre na casa deles, todo dia pra falar a verdade e toda provocação, chateação e irritação que ele direcionava pra sua querida irmãzinha também era direcionada a mim, ele era um pé no saco. Quando éramos adolescentes ele beliscava as minhas bochechas pelo simples prazer de me ver irritada, imitava meu tom de voz até eu me estressar tanto que eu saia da casa dele batendo as portas.

 

 Seus pais diziam que a gente ia casar um dia e eu quase morria de vergonha por dentro. Pra piorar seu quarto era literalmente de frente para o meu, então ele não me deixava em paz, nunca. Nunca mesmo. Ele jogava pedrinhas na minha janela de madrugada só pra passar horas enchendo minha cabeça com as suas baboseiras e às vezes até cantava mais alto só pra me ver soltando fogo do outro lado da janela. Não é porquê você tem uma voz perfeita que você tem que ficar cantando aos berros por aí.

 

 Os instrumentos eram piores, por algum motivo bizarro Chan era ótimo em todos eles, então estava sempre praticando algo ou aprendendo novos tipos de música, sério, e quando ele chamava aqueles arruaceiros que ele chama de amigos era o caos nas minhas tardes tranquilas de domingo. Ele sempre me chamava pra estar no meio deles, mas eu e Hanna nos trancavamos no quarto dela e ficávamos falando mal deles por horas. Na real eles eram bem divertidos mas isso é segredo de estado.

 

 Mas o cara nem é de todo mal, sabe, teve um dia na escola que alguns meninos estavam implicando comigo, eu infelizmente só fiz chorar e chorar muito. Quando eu cheguei da escola eu só desabei na minha cama. Naquele dia eu lembro de Chan observando da janela com o cenho franzido e também lembro que fechei a cortina na cara dele, mesmo assim quando eu fui pra casa dele mais tarde para conversar com a Hanna ele não saiu de perto de nós duas exalando raiva ao me ouvir contar tudo que disseram de mim. Magicamente no outro dia os meninos apareceram com olhos roxos e nunca mais falaram comigo, nem mesmo um bom dia.

 

 Então a gente sempre foi próximo, eu sei, mas não sei dizer quando as coisas desandaram desse jeito e eu simplesmente estou aqui contando a Hanna e ao Felix, respectivamente meus melhores amigos, como que Christopher Bhang, o idiota do irmão dela e melhor amigo dele, me pediu em namoro e eu saí correndo.

 

 Então agora nós podemos voltar a algumas horas atrás, precisamente no dia anterior. Eu saí do meu trabalho de meio período muito tarde, era quase noite e meus pais tinham saído pra jantar como sempre faziam em toda noite de sexta feira, então estava desocupada mesmo. Decidi ir falar com a Hanna, como sempre, nada demais, mas ela também não tava em casa, pela janela eu vi Chris jogando na escrivaninha e simples assim decidi ir pra lá, o que tem de mal né?

 

 Entrei pela porta que rangeu alto mas ele não percebeu, subi de fininho e me joguei na sua cama, ele se assustou de leve e olhou pra trás, mas apenas sorriu pra mim e voltou a jogar. Eu fiquei um pouco arrepiada com o sorriso dele? Sim. Isso vem ao caso agora? Com certeza não.

 

 Fiquei mexendo no celular atoa na cama dele até ele vir e praticamente se jogar em cima de mim. Veja bem, se tem uma coisa que você pode ter certeza é que Christopher Bhang é alérgico a camisetas, eu já to acostumada, mas estar acostumada não quer dizer que eu deixe de ficar corada ao ver o físico dele tão de pertinho.

 

 O que? Ele é bonito, nunca neguei isso.

 

— o que foi? — ele perguntou olhando bem na minha cara — ‘cê tá toda vermelha — ele apertou a minha bochecha sorrindo.

 

— Você só vive nu nessa casa, fico até constrangida, parece que passa necessidade e não tem uma roupa decente no seu guarda-roupa — escondi meu rosto nas mãos abrindo espaço pra ele na cama grande.

 

— Você tá literalmente no meu quarto, Minji. Aqui é onde eu fico à vontade. — revirei os olhos.

 

— Você fica à vontade em qualquer lugar, Chan, até na rua — ele me puxou pra perto e eu me aconcheguei no braço esquerdo dele, novamente eu não sei dizer quando isso começou.

 

 Tá, talvez eu saiba sim, quando nós tínhamos 16 anos, nossa amizade começou a se tornar um pouco mais “física” se assim posso dizer, eu não posso negar que Chan é um grande amigo pra mim, ele e Hanna sempre foram meu porto seguro, de maneiras diferentes é claro. De repente a gente tava sempre muito juntos, a presença dele parecia um ímã que me puxava pra perto, e ele sempre fazia questão de me abraçar e ficar colado em mim, em festas, nas confraternizações da vizinhança, em todo lugar.

 

 Nessa época eu era apaixonadinha por ele, mas negava até a alma, eu sabia que aquilo nunca iria pra frente mesmo.

 

 Quando ele começou a me abraçar por trás e me dar beijos na bochecha eu o proibi, eu dizia que ele tava queimando meu filme e que eu não namorava por culpa dele, ele sempre ficava bravo quando eu dizia isso e falava que só tava me protegendo dos garotos perversos da minha idade, como se ele fosse muito mais velho.

 

 Mas proibir não adiantou muito, porquê eu mesma acabava me encaixando no colo de Chan e por ali ficando em qualquer evento social, mas negava firmemente qualquer um que fosse sequer insinuar que nós tínhamos alguma coisa, eu sempre dizia: Deus me livre, esse coisa ruim. Mas nunca saia dos braços dele.

 

 De repente a gente também saia sozinhos, sem a Hanna, tipo, só amigos sabe, nessa época eu já tinha superado minha paixonite por ele a muito tempo, nós éramos bons amigos e é isso, mesmo que meu coração acelerasse quando ele limpava o sorvete do canto da minha boca todo concentrado, ou quando olhava feio pra todo cara que chegava em mim nas baladinhas que nós três íamos juntos, ou pior quando flertava descaradamente comigo usando aquelas cantadas bestas dele.

 

 Também existe o fato de que Christopher me deu meu primeiro beijo, mas foi só pra treinar, um garoto, quando nós tínhamos sei lá 14 anos para 15 anos me perguntou se eu queria beija-lo, eu disse que sim mas na real não sabia beijar, então pedi a Chan para me ajudar, porque minha melhor amiga Hanna, a falsa, não quis. Chris me ensinou da maneira mais prática possível e pensando bem agora isso pareceu muito armado da parte dos dois. Não tive coragem de beijar o outro menino na escola no outro dia, mas isso também não vem ao caso.

 

— Isso tudo é ciúme? — a voz de Chan me tirou do meu devaneio

 

— De você? Nunca.

 

 Ele revirou os olhos e ligou a tv do seu quarto, colocando a série que assistimos juntos. É, é, nós temos uma série só nossa. Era só mais um dia normal numa rotina normal de amigos quase normais.

 

— Ta, você tava deitada na cama dele, agarrada com ele, fazendo um programa claramente de casal, e ta surpresa com ele ter te pedido em namoro? — Lix perguntou meio incrédulo e meio risonho.

 

— Que programa de casal o que Lix — falei indignada — deixa eu terminar de contar, tá.

 

 No meio do episódio eu me lembrei de uma encomenda que um amigo tinha deixado comigo pra entregar a Chan, eu ri antes de entregar a ele.

 

— Acredita que o Hyunjin acha mesmo que a gente namora? ele falou tipo: diz pro seu namorado me responder no instagram, nosso projeto tá quase completo. Todo mundo acha isso né? Esse povo é muito sem noção, tipo de onde eles tiram isso, uma amizade tão bonita como a nossa, sem nenhuma maldade. — ele olhou pra mim com uma das sobrancelhas erguidas — Que?

 

— Amizade tão bonita? — ele falou grave e baixo, eu me encolhi arrepiada — Minji você sabe que eu sou literalmente apaixonado por você desde quando a gente era criança, não sabe?

 

— Anh? Não, a gente é amigo Chan, claro que eu tive uma paixonitezinha por você quando a gente era menor, mas somos adultos né, somos amigos. — por algum motivo quando eu estou nervosa eu começo a tagarelar e tagarelar — amigos amigos, bons amigos né? Não é porque todo mundo fala que a gente deveria namorar.

 

— Claro, então, se eu te beijasse agora você não iria gostar? — ele estava tão sério que eu tenho certeza que fiquei corada até as orelhas.

 

— Beijar? Chan a gente já conversou sobre isso antes, não é muito bom pra sua vida amorosa está me beijando, a galera já pensa que namoramos, o que suas pretendentes vão pensar?

 

 Ele ficou calado, se aproximando de mim devagar, seu corpo quente se amontoando acima do meu, eu me encolhi um pouco mais desconfiada do meu próprio corpo e suas reações inapropriadas, meu coração acelerado de expectativa contra todo o meu senso de realidade, Chan não gostava de mim de verdade, não é?

 

— Pretendentes? É sério? Quando foi a última vez que você me ouviu falar de alguma garota? Quando foi a última vez que você me viu interessado em alguém que não fosse você? Seja sincera Minji, você gosta de mim e eu gosto de você, é por isso que todo mundo diz o que diz.

 

 Eu abri a boca e fechei várias vezes, eu sentia uma vontade de chorar por algum motivo e meu coração continuava acelerado, era isso então, aquele sentimento nunca passou de verdade? Chan acariciou meu rosto com muita delicadeza, sua feição era de pura ternura, eu ficava cada vez mais encolhida, não sabia o que fazer, também não soube o que fazer quando ele me beijou, suave e firme, era como se estivesse com medo, como se pedisse permissão. Eu correspondi de olhos ainda arregalados. 

 

— Daí, ele simplesmente falou, então, você quer namorar comigo de verdade? — desabei no banco da praça onde estava sentada, Hanna e Félix seguravam um riso de quem estava acompanhando uma novela que demorou tempo demais pra se desenrolar. Palhaços, ou eu sou a palhaça? Sei lá.

 

— E você saiu correndo? — ela perguntou incrédula e eu somente assenti.

 

— Acho que eu estraguei tudo gente, eu realmente gosto do Chan, gosto dele desde sempre, mesmo que eu quisesse negar eu o queria por perto, mas não queria me iludir ou estragar nossa amizade, não sei o que eu faço, sinceramente.

 

— Bom, talvez seja sua hora de remediar a situação então — Lix apontou com o queixo e eu olhei para trás me deparando com Christopher ali parado, seus olhos estavam muito sérios, diferente do habitual e eu fiquei com medo de verdade. Olhei de volta para frente em busca de apoio, mas Hanna e Félix já tinham sumido.

 

 Eu estava realmente encurralada.

 

— Acho que já passou da hora de conversarmos, não é?

 

 

— sem fugir dessa vez? — Tentei fazer graça mas ele não riu, apenas estendeu a mão para mim e eu a agarrei.

 

 Aparentemente iríamos caminhar então, olhei pra ele dos pés a cabeça, ele estava com uma regata preta justa e uma calça de moletom cinza, look habitual de suas corridas.

 

 Me mantive caladinha enquanto andávamos pelo parque cheio, minhas mãos estavam suadas e eu olhava pra ele de 2 em 2 segundos, mas ele estava concentrado no caminho a frente só que seu cenho franzido não me deixava enganar, ele falaria algo e eu não sabia se estava pronta pra ouvir. Então decidi falar.

 

— Olha Chan, eu sei que estraguei tudo ta bom, se você não quiser mas ser meu amigo ou ter contato comigo eu entendo, não deveria ter ido te encher com aquelas besteiras, de verdade, me desculpa.

 

 Ele parou me deixando sozinha mais pra frente, não entendi mas voltei pra perto dele meio correndo meio caminhando.

 

— Você pode me explicar como eu te beijo e você que estragou tudo? — ele quebrou o silêncio me fazendo corar ao lembrar do beijo, e do que veio depois também. — E também consegue me explicar porque você ficou com todo aquele papo de só amigos no meu quarto e depois saiu correndo pra hoje eu te encontrar falando o quanto gosta de mim pra todo mundo menos pra mim? — A cada palavra ele ia se aproximando mais de mim até estarmos um de frente pro outro, entre ele e uma árvore. 

 

— É que… Eu… — acho que estava tendo uma crise de asma, não conseguia respirar.

 

— Eu preciso saber Minji, você gosta de mim ou não? Você me quer ou não. — Tenho certeza que meus olhos estavam arregalados, minha respiração estava curta e eu sentia tudo em mim queimar. — Todos esses anos você continuou me confundindo, me proibindo de te tocar, de te beijar, mas sempre ficando perto de mim, me intoxicando com esse seu perfume, me fazendo me apaixonar mais. Eu não aguento, você precisa entender que eu não aguento. Eu quero só você, não existem pretendentes, não existe só amizade, eu gosto de você. De verdade, então só depende de você. O que você realmente quer?

 

 Olhei para seus olhos sinceros, aqueles olhos que eu conheço tão bem.

 

— Eu gosto de você Chan, gosto mesmo — suspirei fechando os olhos — eu só não queria estragar tudo, você é importante demais pra mim, eu não posso te perder se algo der errado.

 

 Ele enxugou a lágrima que descia do meu rosto me beijando logo em seguida.

 

— Nós não vamos estragar tudo — ele segurou meu rosto e a forma que ele disse nós me arrepiou, parecia real — eu te prometo.

 

— Mesmo quando a gente discutir pelo seu som alto? mesmo quando eu sentir vontade de esganar seus amigos? — brinquei e ele riu fazendo que sim com a cabeça — Mesmo quando eu for pra faculdade ano que vem?

 

— Mesmo assim, minha linda, eu te seguiria até o inferno se fosse preciso — não segurei o choro olhando nos seus olhos. — Park Minji, você quer ser minha namorada, de verdade?

 

E

dessa vez eu o beijei, porque parecia real, parecia sincero, parecia certo, algo dentro de mim gritava: finalmente!