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Era comum estar ciente de todas as ações do seu coronel, principalmente quando ele precisava de uma cúmplice. Apesar de nunca admitir em voz alta, gostava de ser seu braço direito e poder ser alguém ativo que pudesse contribuir em todas as suas ações, mas…
O que ela faria com tantas flores?!
Toda a sua pequena sala e a mesa de jantar estavam ocupadas por diversas flores, arranjos chiques e bem estruturados que lhe remetiam a um jardim quase mágico e que deram um ar gracioso à sua casa; porém, era demais.
Se estreitou um pouco no sofá e acomodou-se, repousando as costas e esticando as pernas. Acostumar-se-ia muito mais com o cheiro das flores do que com o de pólvora. Seu apartamento, antes impessoal e sem graça, tinha agora outro aspecto, com um pouco mais de vida.
No entanto, ainda havia aquela presença perseguidora que não a deixava realmente só em nenhum momento. Sentia um frio na espinha ao escutar os próprios passos e sombras.
Não sabia de que substância as sombras eram feitas, mas agora ela podia se materializar e matá-la. Ou pior, matar seu…
O tilintar do telefone a assusta um pouco, fazendo-a se sobressaltar, porém, pouco depois, o susto se esvai: ela sabe quem ligaria àquela hora para sua casa.
— Coronel. — Ela não precisa confirmar; sabe mesmo que é ele.
— Riza… — Seu nome é dito em um suspiro meio cansado. — Como você está?
— Bem. E você? Aconteceu algo?
— Bem… — sua voz assume um tom meio impaciente, como o de quem responde a uma pergunta idiota. No entanto, depois disso, não há mais nada, apenas um silêncio meio inquietante. — Riza…
— Coronel. — Seu tom é claro e quase uma imposição para que o silêncio continue. Ele sabe que eles não podem ter esse tipo de conversa. Riza não pode falar sobre o que de fato está acontecendo, e ele sabe disso. Ela só espera que ele não seja estúpido o suficiente para estragar tudo.
— Eu queria saber se… — sua voz se amansa tão rápido que chega a ser cômico. — Se você gostou das flores que te mandei. Você não falou nada…
— Elas são lindas. Obrigada.
— Você só tem isso para falar?
Riza revira os olhos.
— O que você quer mais? Eu disse obrigada.
— Bom… — há diversão demais em sua voz. — Eu mandei uma quantidade considerável. Pensei que isso rendesse ao menos algum comentário mais… pessoal.
— O que você quer que eu diga, então?
— Muitas coisas. No entanto, você poderia começar com “querido coronel, muitíssimo obrigada pelas dezenas de flores, ao ver essas flores eu lembro de como…”
— Vou desligar. — Seu anúncio é imediato ao ato de tirar o telefone da orelha e colocá-lo de volta no gancho.
— Riza. É sério. — Ela escuta a voz distante de Roy e volta o telefone ao ouvido. Droga. Por que ela nunca consegue desligar? — Eu realmente queria saber o que você achou das flores. Eu queria que elas te agradassem.
— Eu realmente gostei muito delas. — Será que o coronel estava se escutando naquele momento? Bom, disso ela não tinha certeza, mas pelo menos ele não podia vê-la corar. — Obrigada. De verdade. As flores são lindas. Gostei de como a minha casa ficou com elas.
— Então por que você não parece genuinamente feliz? Eu sei que tem alguma coisa te incomodando. Por que você não fala comigo?
Riza bufa e encosta a testa na parede onde o telefone fixo está pendurado.
Ele não sabe ser discreto de nenhum jeito. Mas ela sabe que ele quer a verdade. Porém, a verdade não pode ser dita — não explicitamente. É um risco muito grande que eles correm; só essa ligação já coloca a vida de muitos em risco. Eles, sejam quem forem, sabem que Riza está com Roy, e ela é sua peça principal. As palavras estão presas na garganta, mas falar é pior.
E ele deveria saber disso, mas, apesar de ser coronel e um dos alquimistas mais fortes, a tenente sabe que ele quer alguma resposta sua. Uma resposta que o satisfaça.
— Coronel… quer mesmo saber?
— Claro. — O silêncio após confirmar o incomoda. — Riza.
— As flores são bonitas. — ela diz, por fim. — Muito bem escolhidas.
— Mas?
— Não há “mas”. — responde rápido demais. — Só achei… eficiente. — Ela se cansa e sorri; talvez pudesse provocá-lo um pouco também. — Da próxima vez — diz, indiferente demais — talvez menos flores sejam suficientes. Para não dar a impressão de que estão sendo… distribuídas.
— Eficiente. — ele repete, com um meio sorriso na voz que ela sabe que está lá. — Você está insinuando que as flores não eram para você?
— Talvez eu esteja aprendendo a reconhecer padrões. — pausa breve. — O senhor costuma repetir o que dá certo.
— Está falando do quê agora?
— Do gesto. — corrige, educada. — Ele funciona em vários contextos, imagino.
O silêncio se estica.
— Está mesmo incomodada com a quantidade? Está com ciúmes?
— Com a visibilidade. — responde baixo, ignorando a última provocação. — Mas isso deve ser irrelevante para alguém acostumado a chamar atenção.
— Desde quando isso te preocupa?
— Desde que passou a me envolver.
Ela respira fundo, controlada demais.
— Não me entenda mal, coronel. Agradeço o cuidado. Só não gostaria que confundissem hábitos… ou intenções.
— Confundissem como?
— Como algo que pode ser facilmente reconhecido. — a frase sai limpa, quase fria. — Certas coisas funcionam melhor quando não são óbvias.
— Você está sendo estranhamente cautelosa.
— Apenas prática. — pausa. — Não quero que algo tão simples se torne inconveniente depois.
— Inconveniente para quem?
— Para o senhor.
Silêncio.
— Bom… — ele diz, enfim. — Não imaginei que flores rendessem tanta análise.
— Nem eu. — responde ela, polida demais. — Na verdade…
Sua frase não é concluída porque, logo após, ela escuta o típico barulho no telefone quando uma ligação é encerrada.
Roy Mustang desligou na sua cara.
CRETINO.
Como ele tem coragem de desligar depois de ligar e encher o saco?
Isso deixa a tenente Hawkeye furiosa. Como poderia existir alguém tão arrogante e prepotente quanto esse homem? Ao encarar o telefone em suas mãos, ela o devolve ao gancho quase de forma agressiva. Esperava ao menos que ele tivesse entendido a real mensagem: ele precisava se afastar.
No momento, flores, ligações e brincadeirinhas não eram importantes.
Porém, Riza não conseguia esconder o quanto aquela ligação a incomodou. Quando tivesse a chance de encontrá-lo pessoalmente, faria questão de fazê-lo engolir o telefone.
Um suspiro cansado lhe escapa, mas não adiantava. Sabia que ele era cabeça-dura; talvez pedisse desculpas mais tarde pela forma como falou também.
As flores são realmente bonitas.
Em outro contexto, talvez fossem melhor apreciadas.
( ˘ ³˘)
Seus cabelos encharcados molhavam um pouco a camisa de flanela velha que usava como pijama. Talvez um pouco de chá a deixasse mais calma, o suficiente para que conseguisse deitar na cama e descansar. Ao ir até a cozinha e preparar um pouco de água para esquentar na chaleira, surpreendentemente a campainha toca, antes mesmo que ligasse o fogo.
O som agudo lhe dá um frio na espinha. Não havia muitas pessoas que a visitariam àquela hora, principalmente trazendo boas notícias.
— Sou eu. — a voz abafada soou do lado de fora da porta. Roy.
Idiota.
— O que você… — diz mais para si mesma enquanto corre para abrir. — O que diabos você faz aqui? — completa ao encará-lo.
— Dessa vez eu trouxe bombons. — Ele estende a pequena sacola que trouxe consigo. Riza apenas troca olhares com ele, suspirando de leve. Roy está vestido de maneira mais casual, com roupas leves e um casaco preto pesado — ou da forma mais casual que ele consegue ser.
Riza não consegue disfarçar como é agradável vê-lo com trajes diferentes dos militares.
Roy não consegue disfarçar os belos pares de pernas da sua tenente expostos sob quase nada de roupa. Uma camisa de flanela transparente deixava um decote que brincava com sua curiosidade, mas…
Claro. Sua cabeça é erguida por Riza em um movimento brusco que o faz encarar seus olhos.
— Perdão, eu me perdi no meio do caminho…
— Vai embora. — Sua voz é firme.
— Como você é uma mulher ingrata. Eu trouxe flores e bombons, você gostaria mais…
— Não estou brincando, coronel. — tentou usar o mesmo tom que tinha quando carregava sua pistola. — Vai embora.
— Não ent—
Não sabia se Roy havia falado algo a mais, mas era claro que ele não entenderia. Afinal, somente ela podia sentir aquele frio atrás da nuca, que a congelava a ponto de percorrer todo o corpo e acelerar o coração. Ele estava lá. Talvez em alguma sombra escondida em qualquer brecha imperceptível, mas era possível sentir.
Aquela presença, por si só, trazia desespero — a frieza que apenas a crueldade carrega consigo. O demônio capaz de tirar tudo o que ela mais amava.
Seu Roy.
E isso ele não poderia entender. Ele não viu o mesmo que ela, não sabe as mesmas coisas. O silêncio, às vezes, é a única forma de proteger alguém. E mandá-lo embora é a melhor coisa, mesmo quando você quer que ele permaneça. Nem o perfume das flores era capaz de acalmá-la como o cheiro dele, ainda que o tivesse sentido por um instante.
Só de vê-lo, as batidas do seu peito tomam o ritmo certo. Mas… ele não poderia servir como seu bálsamo. Não enquanto ainda houvesse tempestade por todos os lados.
Quando dedos ásperos tocaram sua bochecha, Riza percebeu que estava chorando. Não sabia de onde aquelas lágrimas haviam surgido, mas não paravam de cair. Roy tocou a parte de trás da cabeça dela e a trouxe até seu peito, beijando o topo de seus cabelos enquanto Riza chorava ainda mais.
Ele não conseguia imaginar o que ela sabia ou tinha visto para agir daquela forma. Porém, dadas as circunstâncias, sabia dos perigos iminentes que corriam e gostaria de poder fazer mais — protegê-la a ponto de nunca mais vê-la chorar daquele jeito, ainda que tivesse apenas o próprio peito para oferecer consolo. Gostaria que ela encontrasse conforto apenas em dias felizes, não no meio do desespero.
— Me deixa ficar. — sussurrou. — Eu quero ficar aqui com você.
— Você não pode. — disse após um tempo, erguendo a cabeça para encará-lo. Sentia-se uma idiota, mas queria que, ao menos agora, ele a ouvisse.
— Por que não? Eu realmente só quero ficar aqui com você. — Os olhares permanecem presos, e é difícil trocar informações apenas com os olhos, porque, uma vez que você aprende a lê-los, eles nunca mais conseguem mentir.
Vá embora. Por favor. Vá embora.
— Afinal, eu sou o coronel. — Suas mãos terminam de limpar os vestígios de lágrimas. — E quem impediria o coronel de ficar com a sua mulher?
Suas mãos voltam a tocar a nuca de Riza e, dessa vez, ele a aproxima dos lábios, beijando-a devagar, provando com calma cada parte de sua boca; apertando firme sua cintura e aproximando ainda mais seus corpos.
— Não me importo com mais nada. Mas, só neste instante, preciso ter você, minha tenente. — Roy desce os lábios até seu pescoço, fazendo-a se arrepiar. — Afinal, somos humanos. E temos muitas necessidades.
— Não podemos…
— Eu sei. Mas só por agora.
Riza, naquele momento, é apenas ânsia e desejo. O medo que se escondia no escuro desaparece; só há luz e calor quando Roy a toca. A porta é fechada de forma escandalosa, os passos são atrapalhados até o quarto.
As bocas se desencontram por um instante, as costas sentem a maciez do colchão, e os olhares continuam sendo trocas silenciosas de tudo. Ela sabe que ele a entende, mas Roy não para.
Riza o observa tirar toda a roupa. Seus dedos tocam desde o meio da coxa até o pé; Mustang traça beijos que começam no calcanhar e percorrem toda a perna.
Roy não sabia se aquela mulher tinha plena noção de sua lealdade e devoção. Ela era sua rainha. E ele a louvaria mesmo que houvesse inúmeras divindades — parecia deter o universo ao sentir seu gosto. Um gemido atravessa seus ouvidos, e Roy continua, sentindo-a relaxar mais a cada movimento dedicado da língua.
Roy se levanta, trazendo as pernas de Riza até os ombros, beijando suas coxas e cada pedaço de pele ao alcance.
— Hoje eu vou dormir aqui. — declarou. Aquele era o melhor momento para dizer aquilo; em qualquer outro, ela o expulsaria. — Não estou pedindo, é só um aviso.
— Tudo o que você quiser.
Oh. Era tudo o que ele queria ouvir depois de seus gemidos roucos e tímidos. Suas mãos se firmam nas coxas dela, os movimentos se tornam rápidos e ritmados, fazendo-o pensar em como era sortudo por poder chamar aquela mulher de sua.
— Isso não muda nada. — Riza diz em tom baixo, logo depois de se deitar ao lado dele, com a cabeça em seu peito. O braço de Roy envolve sua cintura com um cuidado incomum, como se tivesse medo de que ela desaparecesse.
— Eu sei. Eu só queria ter certeza de que você estava bem. Não posso deixar nada acontecer com você.
Ela assente, mesmo sabendo que aquela certeza era temporária. Riza fecha os olhos e tenta dormir; o afago de Roy em seus cabelos e sua respiração tranquila ajudam a acalmá-la, assim como o cheiro refrescante após um banho rápido.
Riza não sabia o que poderia acontecer dali em diante, mas sabia que, naquela noite, estaria tranquila.
( ˘ ³˘)
Era tarde demais quando Riza acordou. Roy estava sentado na cama, totalmente vestido, fazendo-lhe carinho enquanto avisava que já iria. Ela queria ter acordado um pouco mais cedo; talvez tivessem conseguido tomar café juntos ou apenas… conversar um pouco mais.
Riza era grata a Mustang por sua vinda; assim, conseguiu dormir sem sentir aquele medo que a consumia. Perto dele, sentia-se a salvo, protegida até das sombras.
Mas em todo encontro há uma miserável despedida. A tristeza em seu olhar ficou evidente, e aquilo machucava ainda mais o frágil coração de Roy Mustang. Ver sua garota e não poder ficar mais um pouco o lembrava de por que ainda precisava continuar lutando.
Roy beijava seu pescoço, sentindo o cheiro de cama misturado ao perfume dela — uma pele suave, agradecido por aquela ser a primeira coisa que seus lábios sentiriam naquele dia.
— Um dia — sussurrou, continuando a distribuir beijos de despedida — vou transformá-la na senhora Mustang, e então não terei que me despedir de você quando o dia amanhecer, tudo bem? Só seja um pouco mais paciente. — Roy a sentiu amolecer ainda mais diante das palavras, misturadas ao seu jeito manhoso logo após acordar. — Eu prometo.
O beijo que ela lhe deu selou aquelas palavras, mesmo que não fosse necessário. Riza sempre soube que Roy cumpria todas as promessas que fazia, ainda que demorassem.
Não via a hora de esse tempo chegar.
Por enquanto, esperaria — mesmo no mais denso e inconsolável frio, o verão chegaria.
E eles estariam juntos. Como estão desde sempre.
