Work Text:
“Ela me recolheu do chão coberto de espinhos
Com picadas de mil serpentes, imobilizado pelas espirais
Não deu ouvidos para esses bastardos e suas maldições
Com um olhar me convenceu a pegar e partir”Torna a Casa - Måneskin
Stiles não gritou quando alguém subitamente invadiu sua loja, claro que não. Ele era um spark muito bem sintonizado com a natureza para ser surpreendido com facilidade. Okay, talvez ele tenha se assustado um pouco, e talvez tenha dado um gritinho. Mas ninguém estava ali para ver. Ninguém exceto o homem que agora cambaleava em direção a uma pilha de vasos de flor e desmaiava sobre ela, coberto de sangue, um estranho fluído preto e, agora, terra e folhas.
Armado da primeira coisa que conseguiu encontrar, sua pequena pá de jardinagem, Stiles se aproximou com cuidado, medindo os passos até o homem caído. Ele parecia terrível coberto de cortes e escoriações, as roupas sujas e rasgadas, e, observando de perto, pôde notar que a substância preta que compunha sua sujeira vazava diretamente de dentro das feridas abertas. Stiles torceu o nariz para o cheiro de morte que o homem exalava, bufando com sua própria má sorte. Era um maldito bairro comercial e esse cara decidia morrer justo na sua loja recém-inaugurada?
Um passo mais perto, o jovem spark estendeu a mão, hesitante, para então cutucar com a ponta da pá a barriga do sujeito. Ele gritou e tropeçou para trás quando o desconhecido abriu os olhos e rosnou, presas e um brilho azul sobrenatural denunciando seu status de lobisomem.
Encolhendo-se contra o balcão, Stiles assistiu o lobo rosnar mais uma vez antes de seus olhos se revirarem nas orbitas, caindo inconsciente sobre os inocentes vasos de flor. Desta vez, quando cutucado com a pá, ele não expressou qualquer reação, apenas continuou sangrando e respirando com dificuldade.
Stiles não era um especialista em lobisomens, mas podia dizer com certeza que este havia sido envenenado, ferido e deixado para morrer. Talvez tenha fugido e se escondido em sua floricultura, um refúgio seguro de seu agressor.
Segurando a pá contra o peito, Stiles ponderou suas opções: ele podia chamar a polícia e deixar que as autoridades resolvessem o problema. Podia deixar o homem morrer, e então chamar a polícia. Mas e se ele fosse alguém importante? Talvez um membro de alguma máfia de lobos? Ele se vestia muito bem para alguém comum. Ele também poderia ser um membro do pack local. Stiles não queria arranjar problemas com o pack dominante da cidade onde acabou de se mudar. Nem com a máfia.
Bem, ele tinha alguma magia de cura e um ótimo estoque de ervas medicinais, que ele mesmo cultivava e vendia. Ele sabia como tratar de lobos de um modo geral, e não podia simplesmente assistir o cara morrer aos seus pés.
Largando a pá, Stiles correu até seu estoque, revirando gavetas e reunindo potes. Ele amassou ervas e moeu pós, misturou tudo e infundiu com mágica, e transformando a receita em pasta, espalhou sobre as feridas maiores, as que vazavam veneno, até que estivessem limpas. Com uma toalha úmida, limpou a pele sangrenta, e pegando uma tesoura do balcão cortou para fora do corpo o tecido destruído de sua camisa e tratou dos cortes menores.
Sendo um lobisomem, ele já deveria estar se curando, Stiles pensou enquanto enxugava o suor da testa, mas nada acontecia, a pele continuava ferida e aberta. O sangue, ao menos, parou de escorrer em abundância, então ele julgou seguro enfaixar tudo depois de aplicar mais algumas ervas.
Com o maior problema resolvido até onde estava ao seu alcance, Stiles parou e olhou para o homem ainda deitado em seu chão. Ele o tinha arrastado de cima das plantas, mas não teve força suficiente para mais do que isso. Entretanto, não poderia deixar ele lá. Se for para salvar a vida do lobo, que fizesse isso direito.
Stiles não tinha muita coisa, havia acabado de sair da casa de seu pai e se mudado para uma cidade nova, tudo o que tinha era uma loja de flores, ervas e plantas mágicas em um endereço alugado, onde também morava em um pequeno quarto nos fundos. E tendo nesse quarto apenas um colchão de solteiro, levar o homem para sua cama estava fora de cogitação. Ele teria que se virar com um edredom dobrado sobre o chão e um lençol fino para se cobrir.
Arrumando a cama improvisada, Stiles rolou o homem ainda desacordado sobre o edredom e o cobriu com cuidado. Teria que servir.
Vendo que a noite já avançava até a madrugada e não podia fazer mais nada pelo lobo, Stiles foi dormir, deixando a porta aberta para que pudesse ouvir quando ele acordasse.
Muito cedo na manhã seguinte, Stiles acordou como de costume, quase se esquecendo do homem desmaiado atrás de seu balcão. Ele ainda estava lá, inconsciente, mas sua aparência estava muito melhor, menos pálido e doentio. O sangramento havia cessado completamente, e, removendo as bandagens, Stiles se certificou de que as feridas estavam boas, quase curadas. Ele o deixou descansar então, indo preparar o café da manhã em seu pequeno cooktop portátil.
Quando seus ovos e bacon estavam quase no ponto, Stiles ouviu o som de mais vasos de flor caindo, e se virando para verificar o homem, o encontrou se apoiando pesadamente no balcão, uma mão no peito nu e a outra suportando seu peso. Seus vasos, mais uma vez, se empilhavam no chão que havia limpado na noite anterior.
― Pode, por favor, parar de arruinar minhas flores? ― Stiles resmungou. ― Eu já tive que jogar fora as ervas onde você sangrou em cima ontem.
― Onde eu estou? ― O homem balbuciou, o encarando com dureza nos olhos e endireitando a postura, desafiador. ― E quem é você?
― Stiles, e você está na minha loja ― esclareceu. ― A qual você invadiu ontem à noite, morrendo. Ah, e de nada por salvar sua bunda.
― Por que você me ajudou?
― Eu não poderia deixar você morrer aqui ― o jovem deu de ombros. ― Sabe quanto trabalho daria para limpar a energia desse lugar? Eu tenho plantas sensíveis a esse tipo de coisa por todo lado.
Parecendo só então notar onde estava, o lobo olhou ao redor, e Stiles seguiu seus olhos a passarem por seus inúmeros vasos e arranjos de flores comuns até ervas mágicas raras.
― Bem-vindo à minha loja! ― Gracejou Stiles, voltando a mexer seu desjejum. ― A propósito, como você se chama?
― Peter.
― E posso perguntar como você ficou nessa... ― Stiles usou a espátula para apontar o corpo ferido do homem ― ...situação?
― Política ― rosnou, então se endireitou e estalou as costas, reunindo sua dignidade. ― Onde está minha camisa?
― Eu tive de jogar fora, aquela coisa estava além do salvamento.
― Ótimo ― Peter bufou. ― Vou ter que sair por aí seminu.
― Quer comer antes de sair por aí seminu? ― Servindo um prato para cada, Stiles os colocou sobre o balcão, puxou a única banqueta que tinha para o lobo, e enfim começou a comer seu café da manhã em pé. ― Eu tenho que abrir a loja às oito, então...
― Estarei fora da sua vista antes disso.
Peter se sentou pesadamente sobre a banqueta, seu corpo ainda doía e seu estômago embrulhava só de olhar para o prato em sua frente, mas ele precisava comer se quisesse se recuperar o suficiente para dar um jeito em sua situação. Reunindo uma garfada generosa, o lobo mastigou com calma e engoliu dolorosamente, e já se preparava para a segunda quando sentiu de súbito a comida voltar. Ele mal teve tempo de se virar antes de vomitar todo o breve conteúdo de seu estômago no chão.
― Oh, que nojo, cara ― Stiles torceu o nariz e viraria o rosto se não tivesse notado que algo definitivamente não estava bem. ― Que merda é essa? Por que essa gosma preta fica saindo de você?
Piscando os olhos turvos, Peter olhou para a bagunça no chão, vendo que um pegajoso líquido preto se misturava com o vômito. Passando as costas da mão sobre a boca, encarou a mesma sujeira em sua pele.
― O veneno já deveria ter saído do meu organismo ― balbuciou, então vomitou mais uma vez, sentindo sua garganta queimar em carne viva. ― Acônito .
― Espere, eu tenho isso aqui em algum lugar ― Stiles correu até suas gavetas, remexendo seu conteúdo e tirando de lá um pote de ervas secas. ― Não sei qual o tipo que usaram em você, mas o básico deve servir.
Apressando-se enquanto o homem passava mal atrás de seu balcão, Stiles juntou o acônito e mais ingredientes em um pilão, amassou-os juntos e despejou água em cima. Reunindo muita intenção mágica, ele ferveu até o ponto de chá, dando rapidamente para Peter beber.
O lobo pareceu melhorar após o chá, mas ainda se sentia muito cansado. Stiles então o deixou descansar em sua cama enquanto começava o dia em sua loja, administrando mais chá de ervas de tempos em tempos.
Ele não tinha nenhum motivo para ajudar o homem, que parecia razoavelmente bem para ir embora sozinho, entretanto aprendeu a ouvir sua intuição. Peter era um lobo de olhos azuis, é claro, mas Stiles não iria julgar uma história que não conhecia. Portanto fez sua parte, o emprestou roupas limpas, medicou e alimentou Peter durante o dia, o abrigou durante a noite, e no dia seguinte, quando já se sentia muito melhor, o veneno tendo deixado seu organismo, explicou sobre suas ervas, como aprendeu a arte da cura e o quanto amava trabalhar com plantas.
― Você diz que não é um curandeiro, mas sabia quais ervas administrar em um lobo ― Peter notou, observando atentamente Stiles reenvasar uma planta que ficou grande demais para o vaso. ― E com magia.
― Eu sei só o básico de uma coisa ou outra ― dando de ombros, Stiles encheu o novo vaso com terra. ― Na verdade você tem sorte por eu não ter terminado de matar você sem querer.
Peter riu, e acompanhou o olhar de Stiles descer para seus lábios antes de retornar à sua tarefa. Seu sorriso se alargou, mas ele nada disse, apenas continuou olhando cativado as mãos esguias trabalharem.
Stiles o intrigava. Ele, como lobisomem, conseguia sentir o imenso potencial mágico que ele exalava, mas o usava para cultivar plantas! Com treinamento adequado, poderia se tornar um mago de muito sucesso. Mas, tendo passado quase dois dias em sua companhia, notou que isso era o que Stiles queria. Ele parecia satisfeito cuidando de sua loja, cultivando plantas e fazendo arranjos de flores, e nem parecia notar quando colocava aqui e ali toques de sua magia. Ele era feliz com o que fazia, e isso era uma coisa que Peter tinha dificuldade em assimilar.
Crescendo em uma matilha de lobos, ele foi criado para ser o executor do bando, foi treinado desde cedo para matar e ser o melhor nisso, e ninguém nunca o perguntou o que ele queria fazer. É claro que depois de tantos anos no cargo, ele não o trocaria por nada, o que não excluía a leve inveja que tinha do jovem mago vivendo sua vida simples como queria.
Saindo dali, como teria de fazer em algum momento, Peter iria atrás de vingança contra sua tentativa de assassinato, e Stiles continuaria indiferente em meio às suas flores.
― Mas você sabia que ervas misturar ― retomou, carregando um vaso pesado para Stiles, até onde ele o pediu para colocar na vitrine para pegar sol. ― E como fazer de um veneno o antídoto.
― A diferença entre o remédio e o veneno está na dose ― Stiles explicou, então apontou para uma planta. ― Como aquela. É muito usada na decoração, praticamente inofensiva sozinha, mas se misturar um pouco com essa e expor sem querer em uma ferida aberta, você está perdido.
― E isso funcionaria em lobisomens? ― Peter perguntou em tom neutro, sem deixar Stiles saber o quanto estava interessado. ― O que aconteceria?
― Bem, não sei, eu não saio por aí envenenando lobos ― Stiles deu de ombros, tirando do bolso uma tesoura de poda para ajeitar um arbusto ornamental. ― Mas talvez se colocar um pouco de acônito, pode ser que isso enfraqueça o lobo. Por quê?
― Só para que eu fique longe disso.
No momento Stiles não prestou atenção ao que Peter queria dizer, pois se havia uma coisa que o distraía do seu entorno, era alguém lhe dar liberdade para tagarelar a respeito de plantas, e o lobo era um bom ouvinte.
Ele sentiu falta do lobo no dia seguinte, tendo Peter ido embora à noite, sentindo-se completamente curado. Depois de dois dias de companhia constante, ficar sozinho na loja começava a parecer muito solitário.
Ligando a televisão para ocupar o silêncio da loja vazia, Stiles deixou-a no canal do noticiário da noite, pouco se importando com o que era transmitido até ouvir um nome, seguido da voz que foi sua companheira nos últimos dois dias.
Peter dava uma declaração ao jornalista a respeito de ter se tornado o novo alfa da matilha Hale, a maior e mais forte matilha de lobisomens do estado. Boquiaberto, ele assistiu o homem revelar que Talia, sua irmã e ex-alfa, foi pega em uma grande organização corrupta com seu emissário como cúmplice, e por seus crimes, foi destituída do cargo.
Stiles não era inocente, ele sabia que um alfa ser “destituído”, significava ser morto pelo próximo alfa. Que agora era Peter. Seu Peter, o qual tinha salvado a vida de uma tentativa de assassinato.
Pensando nisso agora, ele finalmente entendeu o motivo do lobo estar tão interessado em venenos.
― Eu ajudei o executor do bando a matar sua alfa ― Stiles guinchou, levando uma mão à testa, sem desgrudar os olhos da televisão. ― E agora ele é o alfa da cidade!
E pela segunda vez na semana, Stiles se assustou quando teve a loja invadida, e se virando para a porta dos fundos, viu Peter entrar muito mais dignamente do que da primeira vez.
― Que diabos? ― Gritou, seu coração assustado martelando em seu peito. ― Você poderia ter batido na porta! Eu teria aberto.
― Estava aberta ― o lobo sorriu presunçoso. ― Então você já sabe.
Peter apontou para a televisão, onde seu eu gravado ainda respondia perguntas de repórteres.
Stiles olhou de um para o outro, não lhe escapando o fato de o homem parecer muito melhor quando estava bem-vestido em roupas obviamente caras. E ainda melhor sem estar à beira da morte.
― Como você pôde? Eu salvei sua vida e então você foi e matou a alfa!
― Em minha defesa, ela tentou me matar primeiro ― Peter explicou. ― As coisas sobre seu envolvimento com o crime? Tudo verdade. Eu descobri e a confrontei, então ela e seu emissário tentaram me matar.
― Isso explica por que as feridas demoraram tanto para cicatrizar ― Stiles meditou, se acalmando. ― Ouvi dizer que ferimentos causados por um alfa curam mais lentamente.
― De qualquer jeito, eu tenho uma dívida de vida para com você, além das plantas que eu arruinei quando caí sobre os vasos ― Peter sorriu, se aproximando de Stiles até estar dentro de seu espaço pessoal. ― Qualquer coisa que precisar, o bando Hale terá prazer em ajudar.
Stiles engoliu em seco com o tom sedutor, e ele teria dado um passo para trás se já não estivesse de costas para o balcão. Preso entre o móvel e o lobo, agora alfa, o jovem se sentiu subitamente mais nervoso, não de medo, entretanto, mas sim de algo que receava em admitir como sendo atração.
― Eu terei prazer em ajudar ― sorrindo predatório, Peter se inclinou a fim de aspirar o leve cheiro de excitação que o jovem exalava, doce e inebriante. ― Posso levá-lo em um jantar de agradecimento?
― Então serão dois favores para você ― Stiles gracejou, se sentindo corajoso. Peter sorriu e ele se envaideceu.
Peter havia nascido para ser o executor do bando. Mesmo agora sendo o alfa, ele ainda invejava a maneira como Stiles poderia brincar e viver como queria. Como alfa, ele ainda não tinha liberdade para ser o quisesse, mas não tendo que responder a mais ninguém, tinha a liberdade de ir atrás do que queria. Que no momento tinha a forma de um mago florista que salvou sua vida sem dever nada a ele, que se contentava em cuidar de plantas e cativar lobos, ao que parecia.
